Eu sei que muita gente poderosa de nosso país considera que todo oficial de polícia correto deve professar imprescindivelmente a “ideologia nacionalista”; e sei também que dita indefinível ideologia se opõe aos grandes internacionalismos tais como o marxismo, a maçonaria, o sionismo, as corporações multinacionais, etc., e até a política externa das potências imperialistas. Na ideologia nacionalista é crença corrente que todas essas vastas organizações convergem numa cúpula de poder, situada em algum lugar do mundo, verdadeiro governo secreto que chamam “Sinarquia Internacional”.
A Sinarquia havia desenvolvido uma Estratégia cuja execução há de conduzir à formação de um Governo Mundial que reinaria sobre todas as nações da Terra. As diferenças e contradições que se observam entre as grandes corporações mencionadas seriam de caráter tático e puramente exteriores; nos vértices de poder todos coincidiriam e os esforços gerais estariam encaminhados a cumprir a Estratégia sinárquica.
Na ideologia nacionalista é dogma, desde quase um século, que a Sinarquia teria sido fundada pelos judeus com a pretensão de assegurar-se do domínio do Mundo e dar assim cumprimento a profecias emanadas da Bíblia e a mandamentos do Talmud. Por isso os nacionalistas que sustentam essas idéias acabam por odiar ardentemente os judeus.
Não me surpreendeu, então, a exclamação anti-semita do Oficial Maidana; mas, entendendo que se tratava de uma impressão apressada, tratei de fazer-lhe compreender que atribuir origem judia à arma homicida, só porque as medalhas tinham a forma da Estrela de Davi, era no mínimo arriscado: de fato, tal símbolo é utilizado também por outras religiões ou seitas como a Maçonaria, a Teosofia, os Rosacruzes, as Igrejas cristãs, etc. Ademais, lhe disse, estavam a romã e o trevo constituindo uma combinação estranha; e as descrições indecifráveis? E o cordão de cabelo tingido? Não. Não seria tão fácil qualificar o conjunto.
Ainda que pareça incrível, algo faltava na cela de Belicena Villca: a pasta com seus escritos. A polícia, ao se inteirar do conteúdo, e considerá-lo sem valor, descartou de imediato uma possível subtração e se negou terminantemente a vinculá-lo com o motivo do crime: antes tentaram persuadir-nos de que a pasta pudesse ter parado no incinerador do hospital, seja por acidente, seja por represália de alguma enfermeira cansada com o excessivo zelo exigido para cuidar da enferma.

